Olhamos o resultado de cada uma das 94 mil escolas e prédios onde os brasileiros votaram e cruzamos com a renda do bairro em volta, segundo o Censo 2022. O objetivo é mostrar, sem tomar partido, onde Lula e Flávio Bolsonaro tiveram seus votos, qual o papel da renda e o que esperar do 2º turno.
Por Bruno Rodrigues Gonçalves, físico, que trabalha com ciência de dados e modelagem matemática.
Arraste para mover, use a roda do mouse ou o gesto de pinça para aproximar. Na camada de locais de votação, cada ponto é uma escola ou prédio onde funcionaram seções, com tamanho proporcional aos votos. A cor pode mostrar quem venceu, a renda do bairro ou os "bolsões" de voto explicados mais abaixo.
Fronteiras: malha municipal IBGE (simplificada). Locais posicionados pelas coordenadas que o próprio TSE publica no cadastro de locais de votação.
Flávio terminou o 1º turno na frente, mas a vitória dele e a de Lula vieram de lugares muito diferentes. Lula venceu com folga no Nordeste, na zona rural e nas cidades pequenas. Flávio venceu no Sul, no Centro-Oeste, no Norte, na maior parte do Sudeste e nas cidades médias. Nas grandes metrópoles, os dois praticamente empataram.
Vantagem do vencedor em cada estado, em pontos percentuais dos votos válidos. Passe o mouse para comparar com 2022.
Votos válidos de cada candidato. Flávio venceu em capitais e Lula em .
Votos válidos conforme o tamanho da cidade (população do Censo 2022), e em quantas cidades de cada tamanho cada um venceu.
Votos válidos nas escolas da zona urbana e da zona rural, em cada região.
Para cada local de votação, calculamos a renda média das famílias do bairro em volta, com dados do Censo 2022. Isso descreve o bairro, não cada eleitor.
Do bairro mais pobre ao mais rico, a votação de Flávio sobe sem parar até a classe média alta. Nos bairros mais ricos de todos, ela volta a cair um pouco, e Lula recupera terreno.
Dividimos todos os votos do país em 20 grupos do mesmo tamanho, do bairro mais pobre (1) ao mais rico (20).
Em salários mínimos de 2022 (R$ 1.212). Cada barra soma 100% dos votos válidos.
Votação por faixa de renda dentro de cada região, em 10 grupos do mais pobre ao mais rico. No Norte e no Nordeste a renda divide muito os eleitores; no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, Flávio vai bem em quase todas as faixas. FlávioLula
6 mil locais sorteados. Mais à direita, bairros mais ricos; mais acima, mais voto em Flávio. A linha mostra a média.
Barra para a direita: no estado, bairros mais ricos votaram mais em Flávio. Para a esquerda: votaram mais em Lula. No Rio de Janeiro e no Distrito Federal acontece o contrário do resto do país.
Renda não é o único traço do bairro que acompanha o voto. Usando o Censo 2022, olhamos também a idade dos moradores, quantos adultos não sabem ler e escrever e quantos se declaram pretos ou pardos. Em cada gráfico, os locais de votação foram divididos em cinco grupos do mesmo tamanho, do menor ao maior valor.
Votos válidos de cada candidato nos cinco grupos de bairros. Passe o mouse para ver os números. FlávioLula
Juntos, região, alfabetização, cor/raça, renda e idade explicam das diferenças de votação entre os locais. O gráfico mostra quanto dessa explicação cabe a cada um.
A região do país é o fator mais forte: um bairro do Nordeste e um do Sul com a mesma renda votam de forma muito diferente.
A alfabetização vem logo depois. Onde há mais adultos que não sabem ler, Lula vai muito melhor. Ela pesa mais que a própria renda porque acompanha o voto de forma mais regular, enquanto a renda tem aquela curva que sobe e depois desce nos bairros mais ricos.
A idade quase não pesa: bairros com mais idosos votam só um pouco mais em Flávio.
Esses fatores andam juntos e se sobrepõem, então a divisão é uma partilha justa da parte que eles explicam em comum, não uma medida de causa e efeito.
Sim, e muito. Para medir isso usamos o Índice de Moran, uma medida da estatística que compara o resultado de cada escola com o das 8 escolas mais próximas. Vai de −1 a 1. Perto de 1, vizinhos votam igual. Perto de 0, morar perto não diz nada. Abaixo de 0, vizinhos votam diferente.
No 1º turno de 2026 o índice ficou em 0,85, um valor muito alto. Sabendo como votou uma escola, dá para adivinhar com boa precisão como votaram as vizinhas.
Clique nos quadrados para trocar a cor. A quantidade de cada cor pode ser a mesma e o índice mudar totalmente: ele mede se as cores estão juntas ou espalhadas, não quantas são.
Eixo x: valor do local (padronizado). Eixo y: média dos 8 vizinhos. A inclinação da reta é o I de Moran. Cores mostram os locais com agrupamento significativo.
999 redistribuições aleatórias dos valores entre os locais. Nenhuma chegou perto do valor observado (pseudo-p = 0,001, o mínimo possível com 999 permutações).
Um bolsão é uma área onde várias escolas vizinhas votaram em peso no mesmo candidato, de um jeito que não seria obra do acaso. Também procuramos as ilhas: lugares que votaram diferente de toda a vizinhança. No mapa acima, escolha Bolsões para vê-los. Na estatística, essa técnica se chama LISA.
De cada 100 locais de votação da região, quantos estão em cada tipo de bolsão.
Os bolsões de Lula ficam nos bairros de até 2 salários mínimos; os de Flávio, nos bairros a partir de 2.
Em 2022, no 1º turno, Lula teve 57,3 milhões de votos e Bolsonaro 51,1 milhões. Em 2026, Lula teve 53,9 milhões e Flávio 56,1 milhões. Comparando município a município, contando só os dois primeiros colocados de cada ano, a fatia de Lula caiu em dos municípios do país.
A queda foi maior nas cidades pequenas, nos municípios mais pobres e no Sul. Nas metrópoles e nas cidades mais ricas, ele perdeu menos. Veja no mapa.
Mudança na fatia de Lula entre os dois primeiros, de 2022 para 2026, em pontos percentuais.
Quanto menor a cidade, maior a perda de Lula.
Municípios em cinco grupos do mesmo tamanho, do mais pobre ao mais rico. Lula perdeu mais nos mais pobres.
Fatia de Lula entre os dois primeiros em 2022 (horizontal) e em 2026 (vertical). Abaixo da linha, Lula caiu; acima, subiu.
Cidades com mais de 100 mil habitantes.
Cidades com mais de 100 mil habitantes.
No 1º turno, 21 em cada 100 eleitores aptos não compareceram, a maior taxa desde 1998. Outros 6 milhões foram à urna, mas votaram em branco ou anularam. É nesse grupo que está boa parte da disputa do 2º turno: cada eleitor que decide voltar, ou decide ficar em casa, conta tanto quanto um voto que muda de lado.
De cada 100 eleitores aptos, quantos não votaram.
A falta muda pouco com a renda. Já o voto branco e nulo cai bastante nos bairros mais ricos.
De cada 100 eleitores aptos, quantos não votaram. O ponto vazio é 2022; o cheio, 2026.
No 1º turno, Flávio terminou na frente com 2,2 milhões de votos de vantagem. Os outros onze candidatos somaram 9,3 milhões de votos, o suficiente para mudar o resultado. A pergunta é para onde esses votos vão agora.
Para responder, olhamos três coisas: onde moram os eleitores de cada candidato que saiu da disputa, como eleitores parecidos se comportaram no 2º turno de 2022, e o que dizem as pesquisas feitas depois de 4 de outubro.
Isto é uma estimativa, não uma certeza. Uma chance de 1 em 10 é pequena, mas acontece. Debates, fatos novos ou um erro das pesquisas ainda podem mudar o quadro até o dia 25.
Os quatro mais votados entre os eliminados já declararam apoio a Flávio: Zema no dia 5, Caiado no dia 6 e Augusto Cury no dia 8, este com um termo de compromisso assinado pelos dois. Renan Santos ficou neutro. Entre os sete candidatos menores, três apoiam Lula, um apoia Flávio e três estão neutros.
Os eleitores desses quatro candidatos votaram, em geral, em bairros de renda acima da média, no Sudeste e no Sul, e em lugares onde Flávio já tinha ido bem. Toque em um card para ver no mapa onde cada um teve votos.
De cada 100 eleitores de cada candidato, quantos votaram em bairros onde Lula domina, onde Flávio domina ou em bairros divididos. A última barra mostra todos os eleitores do país, para comparar.
Quanto cada candidato teve dos votos válidos conforme a renda do bairro, de até 1 salário mínimo a mais de 10. A linha tracejada é o resultado do candidato no país todo.
Pesquisas mostram o que as pessoas dizem; as urnas mostram o que fizeram. Comparando, seção por seção, os votos do 1º e do 2º turno de 2022, dá para estimar para onde foi cada grupo de eleitores. O gráfico abaixo mostra o resultado.
Duas lições. A primeira: apoio declarado muda pouco. Simone Tebet apoiou Lula em 2022, e mesmo assim seus eleitores se dividiram quase ao meio, com um pouco mais indo para Bolsonaro. A segunda: alguns eleitores de Lula do 1º turno não voltaram para votar no 2º, enquanto os de Bolsonaro voltaram quase todos.
Juntando o que as pesquisas perguntaram aos eleitores dos eliminados, o que aconteceu em 2022 e os apoios declarados, esta é a nossa estimativa para cada grupo. Ela não é exata: nas simulações, deixamos esses números variar para mais e para menos.
Cenário mais provável, em milhões de votos. O que soma para Flávio aparece em azul; o que soma para Lula, em vermelho.
Resultado de Flávio conforme a parte dos eleitores dos eliminados que escolher Lula. A faixa cinza é o que as pesquisas mostram hoje.
Cada linha muda uma suposição. O ponto mostra o resultado mais provável de Flávio naquele cenário, e a barra cinza a faixa onde ele deve cair. À direita, quantas vezes cada um venceria em 100 eleições simuladas.
Pesquisas feitas depois do 1º turno. Quase todas foram a campo antes do anúncio de Cury.
A migração de 2022 foi estimada por inferência ecológica (regressão de Goodman com restrições, por estado, ponderada pelos aptos) nas seções presentes nos dois turnos, com intervalos de 95% por bootstrap de municípios. A matriz reproduz o 2º turno de 2022 com erro abaixo de 0,1%. A simulação aplica as matrizes regionais aos votos de 2026, sorteia o destino dos eleitores dos eliminados de distribuições Dirichlet e soma três choques aleatórios: oscilação de campanha (DP 1,5 p.p.), retorno dos abstencionistas e repetição da assimetria de comparecimento de 2022. São 200 mil repetições. A chance consolidada mistura meio a meio o modelo estrutural e o de pesquisas.
Percentual de cada linha; entre parênteses, intervalo de 95%.
Participação de Flávio nos válidos. Linha tracejada: distribuição das pesquisas.
Faixa de 10% a 90% quando cada incerteza varia sozinha.
Tudo aqui vem de dados públicos oficiais: o resultado de cada seção eleitoral e a localização de cada escola onde se votou, publicados pelo TSE, e a renda das famílias de cada pedaço de bairro, medida pelo IBGE no Censo 2022. Os totais batem exatamente com o resultado oficial. Quando algo é estimativa, a página diz.
Bairro não é pessoa. Mostramos como votaram os bairros de cada faixa de renda, não como votou cada pessoa. Em todo local de votação há eleitores de todos os perfis.
Local de votação não é endereço. Muitos eleitores votam longe de onde moram hoje, especialmente quem mudou de bairro sem transferir o título.
Renda não é tudo. Usamos a renda de quem sustenta a casa, que não mostra patrimônio, escolaridade ou profissão. E os valores são de 2022.
O tamanho da área muda o resultado. Olhar por município ou por escola dá números um pouco diferentes. Por isso mostramos as duas formas.